A Importância Das Emoções Na Infância

Antes de ler, tenha certeza que você já leu a parte 1 e 2 para que você possa acompanhar sem problemas esta leitura, OK?

Praticamente não há teóricos da psicologia ou da educação que não ressaltem a importância das emoções na infância e, particularmente, na aprendizagem.Ainda menos são os professores que desconhecem esse fato notório na sua vida profissional. O que pode ainda ser útil acrescentar é que essas noções têm uma fundamentação indiscutível na própria evolução da organização cerebral de nossa espécie! Vejamos.

O cérebro humano não está completamente desenvolvido no nascimento. Os mamíferos mais semelhantes geneticamente ao homem (os chimpanzés têm uma estrutura genética apenas 98% idêntica a nossa!) apresentam no nascimento um desenvolvimento da estrutura cerebral da ordem de 70%. Os 30% restantes se completarão nos seis primeiros meses de desenvolvimento após o nascimento.

No filhote humano, que de todas as espécies é o que mais tempo leva para amadurecer o cérebro plenamente, apenas 23% da estrutura cerebral está desenvolvida no nascimento. Durante os seis primeiros anos de crescimento várias funções cerebrais serão completadas ou desenvolvidas e o cérebro continuará a moldar-se durante todo o restante da vida. Mas em nenhuma outra fase a diferenciação de funções será tão intensa quanto na infância. Toda essa organização, ainda que biológica e material, será fortementeinfluenciada, dirigida, regulada e nutrida na relação desse filhote com os outros humanos e com a sociedade onde crescer. Numa palavra: completamos nosso desenvolvimento cerebral e biofísico em sociedade, na cultura e na história onde nos inserimos.

Nossos 2% de diferenciação na estrutura genética, que nos fizeram uma espécie completamente distinta e mais evoluída, são moldados pela existência na sociedade, no grupo, nas relações travadas com os outros significativos. Por tanto a qualidade da vivência infantil com outras pessoas é de fundamental importância na estruturação humana daquele ser. Ainda mais importante serão as vivências emocionais desse período, pois estarão modelando memórias emocionais muito antes de ser possível a criança ter estruturado uma avaliação razoável do contexto em que as vivências se dão.

(...)Muitas lembranças emocionais fortes datam dos primeiros anos de vida, na relação entre a criança e aqueles que cuidam dela. (...) Durante esse primeiro período de vida, outras estruturas cerebrais, em particular o hipocampo, que é crucial para as lembranças narrativas, e o neocórtex, sede do pensamento racional, ainda não se desenvolveram inteiramente. Na memória, a amígdala e o hipocampo trabalham juntos, cada um armazena e conserva independentemente sua informação. Enquanto o hipocampo retém a informação, a amígdala determina se ela tem valência emocional. Mas a amígdala que amadurece muito rápido no cérebro infantil, está muito mais próxima da forma completa no nascimento. (GOLEMAN, 1996, p.35)

As interações estabelecidas nos primeiros anos de vida, particularmente na família, são importantes pois constituem lições elementares gravadas na amígdala como modelos não verbais de respostas emocionais. A criança observa os adultos entre si e com ela mesma. Nessa observação aprende como se demonstra raiva ou afeto, como se controla ou chantageia-se quem nos quer bem, como perder, como apaziguar etc, etc...

(...)Quando bebês começamos olhando à nossa volta, observando a vida acontecer. Permanecemos deitados em nossos bercinhos, observando. Mudamos para o cercadinho e observamos. Choramos e observamos. Sorrimos e observamos. Ficamos bravos e observamos, obedecemos e desobedecemos e observamos. Para cada ação, observamos a reação dos que nos rodeiam.

(...)Quando pequenos nós observamos e ajustamos nossas lentes. Permanecemos observando e decidindo como a vida funciona. Ajustamos nossas lentes até termos a nossa receita particular de óculos, lá pelos cinco anos de idade. (...) As vezes descobrimos lá pelos 40 anos, que ainda usamos as mesmas lentes que criamos aos cinco anos. (SCHNEBLY, 1995, p.14)

As experiências emocionais quando profundamente traumáticas ou marcantes deixam modelos de reações emocionais praticamente inconscientes. No futuro uma vez que a amígdala capte o surgimento de um padrão sensorial que pareça ligado a tais memórias emocionais, disparará suas reações antes de ter confirmado a adequação dos sentimentos. Tais explosões emocionais poderão parecer desproporcionais na expressão ou intensidade, gratuitas e incompreensíveis às vezes, até para a própria pessoa que a experimenta. A raiz de tais comportamentos encontra-se em vivências primitivas, de quando ainda não havia como interpor ao padrão emocional experimentado uma consideração apaziguadora; que só poderia vir da racionalidade que, naquela época da infância, ainda não estava presente.

Os três ou quatro primeiros anos de vida são um período em que o cérebro da criança cresce até cerca de dois terços de seu tamanho final e evolui em capacidade num ritmo maior do que jamais voltará a fazer. Neste período ocorrem mais facilmente tipos-chave de aprendizado do que na vida posterior - sendo o aprendizado emocional o principal entre eles. Nessa época a tensão severa pode prejudicar o centro de aprendizado do cérebro e, portanto, o intelecto). Embora,(...) isso possa ser remediado em certa medida por experiências na vida mais tarde, o impacto desse primeiro aprendizado é profundo. (GOLEMAN, 1996, p.210

O crescimento e amadurecimento do cérebro humano é lento e gradual. Assim todas as experiências infantis acabam por estimular e repercutir por toda a organização neural. As experiências emocionais ainda mais particularmente ficam modeladas no cérebro infantil devido a pouca possibilidade de serem, para a criança, contrabalançadas em importância comparativa com quaisquer outras experiências perceptuais ou motoras. A criança esmerasse em comportar-se de forma a sentir-se aceita, segura, amada. Habitua-se a buscar tais satisfações, faz tudo o que pode para sentir-se bem. Modela-se pelas respostas que recebe às expressões de suas necessidades.

Os hábitos de controle emocional repetidos vezes sem conta na infância e na adolescência ajudam eles próprios a moldar esses circuitos. Isso torna a infância uma janela crucial de oportunidade para moldar tendências emocionais de toda a vida; os hábitos adquiridos na infância tornam-se fixos na fiação sináptica básica da arquitetura neural, e são mais difíceis de mudar mais tarde na vida. Em vista da importância dos lobos pré-frontais no controle da emoção, a muito longa janela para a escultura sináptica nessa região do cérebro bem pode significar que, no grande desenho do cérebro, as experiências da criança com os anos moldam ligações duradouras nos circuitos reguladores do cérebro emocional. Entre as experiências críticas estão até onde os pais são confiáveis e respondem às necessidades da criança, as oportunidades e orientação que a criança tem no aprendizado de como lidar com sua perturbação e controlar seus impulsos e a prática da empatia. (GOLEMAN, 1996, p.241. Sublinhado nosso)

Como estamos vendo o desenvolvimento vai se processando lentamente com a contribuição de todos os adultos significativos. A família é o lugar da primeira experiência emocionalmente mais forte não só pelas vivências que possibilitam, mas também pelos modelos que os pais oferecem de como lidam com os próprios sentimentos e os da criança. Numa sociedade que coloca suas crianças cada vez mais cedo nas escolas regulares ao mesmo tempo que as mães têm cada vez menos tempo para seus filhos, as relações com professores, que acabam acontecendo muito cedo e duram por muito tempo, acabam também contribuindo estruturalmente na formação psíquica da criança.

Noutras palavras a proximidade professor-aluno influencia, a ambos, muito além do domínio cognitivo. Os professores fazem parte da modelagem mais básica das crianças que educa, interfere desde no privilegiamento de algumas rotas neurais, padrões de reações emocionais, modelagem de identidade sexual, até no desenvolvimento de habilidades cognitivas, entre outras. Todos os adultos significativos entram como compositores de oportunidades de aprendizagens emocionais e, pelo mesmíssimo processo, serão também compositores das possibilidades negadas. Quando não experiência alguns recursos e modelos de solução emocional, ou seja, quando algumas respostas nunca são observadas ou emitidas, esse fato também modela as futuras reações emocionais da criança. Alguns comportamentos emocionais apropriados, como o perdão, por exemplo, podem não ser incorporados aos padrões infantis pelo simples fato de não terem sido experimentados.

(...) As crianças nascem com muito mais neurônios do que reterá o seu cérebro maduro; por um processo conhecido como "poda", o cérebro na verdade perde as ligações neuronais menos usadas, e forma outras fortes, nos circuitos sinápticos mais utilizados. A poda, eliminando sinapses estranhas, melhora a proporção sinal-ruído no cérebro eliminando a causa do ruído. O processo é constante e rápido. Formam-se ligações sinápticas em questão de horas ou dias. A experiência, sobretudo na infância, desculpe o cérebro. (GOLEMAN, 1996, p.239 Sublinhado nosso)

Traduzindo em linguagem quotidiana poderíamos dizer crianças privadas de vivências emocionais sadias durante a infância terão menos predisposição a um equilíbrio emocional satisfatório. Todos os profissionais de educação reconhecem este fato na sua prática quotidiana. As crianças oriundas de situações conflitivas, violentas ou abusivas acabam desenvolvendo comportamentos agressivos ou severamente introspectivos. Suas dificuldades emocionais revelam-se em suas dificuldades de se relacionarem saudavelmente com os outros e/ou na dificuldade de aprendizagem.

O afeto é a condição primeira, basal, de desenvolvimento de seres humanos. Permanecerá presente durante todo o restante do desenvolvimento, subjacente a toda e qualquer atividade significativa para o ser (no trabalho, na parceria sexual, na aprendizagem, na expressão artística, etc.). Todo o conteúdo psíquico do sujeito acondiciona-se numa estrutura organizada primeiramente por afeto. Somos constituídos por afeto, e passaremos depois longos anos no aprendizado, meramente social, de escondê-lo e esquadrinhá-lo dentro das normas do permitido. (MARCONDES, 1990, p.21)

Não é raro que esse esquadrinhamento se dê nos espaços de vivência da criança ainda em tenra idade, muitas vezes através de modelos emocionais diferenciados por sexo. Essa diferenciação dá certa desvantagem para os meninos em sociedades que desvalorizam o treinamento emocional como coisa menor e ligada a "fragilidade feminina". Os meninos dessas culturas recebem menos treinamento emocional baseado na suposição, errônea, de que sejam menos afeitos a emoções. É curioso como tais suposições sobre as diferenças sexuais são, na verdade, construtoras dessas diferenças muito mais do que advindas de uma estrutura emocionalmente díspare.

(...) ensinam-se a meninos e meninas lições bem diferentes sobre como lidar com as emoções. Os pais, em geral discutem emoções - com exceção da ira - mais com as filhas que com os filhos. As meninas recebem mais informação sobre emoções que os meninos: (...) quando as mães falam com as filhas sobre sentimentos discutem com mais detalhes o próprio estado emocional do que fazem com os filhos - embora com os filhos entrem em mais detalhes sobre as causas e conseqüências de emoções como a ira. Leslie Brody e Judith Hall, que resumiram a pesquisa sobre diferenças de emoções entre sexos, sugerem que como as meninas desenvolvem mais rapidamente a linguagem que os meninos, isso as leva a ser mais experientes para explicar seus sentimentos e mais habilidosas que os meninos no uso das palavras para examinar e substituir reações emocionais como brigas ísicas; em contraste elas observam: -os meninos, para os quais se desenfatiza a verbalização de afetos, podem tornar-se em grande parte inconscientes dos estados emocionais, tanto em si mesmos como nos outros.

Aos dez anos, mais ou menos a mesma porcentagem de meninas e meninos é francamente agressiva, dada ao confronto aberto quando zangados. Aos treze anos, surge uma reveladora diferença entre os sexos: as meninas se tornam mais capazes que os meninos de ardilosas táticas agressivas como o ostracismo, a fofoca maldosa e as vinganças indiretas. Os meninos, em geral, simplesmente continuam briguentos quando zangados, ignorando outras estratégias mais disfarçadas. Essa é apenas uma das muitas formas como os meninos - e depois os homens - são menos sofisticados que o sexo oposto nos atalhos da vida emocional.Quando as meninas brincam juntas, fazem isso em grupos pequenos, íntimos, com ênfase na minimização da hostilidade e maximização da cooperação, enquanto as brincadeiras dos meninos são em grupos maiores, com ênfase na competição. Pode-se ver uma diferença-chave no que ocorre quando as brincadeiras de meninos e meninas são interrompidas porque alguém se machucou. Se um menino que se machucou fica irritado, espera-se que saia e pare de chorar para que a brincadeira recomece.

Se o mesmo acontece num grupo de meninas brincando, a brincadeira para e todas se reúnem em voltapara ajudar a menina que chora. (...) os meninos se orgulham de sua independência e autonomia solitárias, duronas, enquanto as meninas se vêem como parte de uma teia de ligações. Assim os meninos são ameaçados por qualquer coisa que desafie sua independência, enquanto as meninas são mais ameaçadas por um rompimento em seus relacionamentos. (...) Essa perspectivas diferentes significam que homens e mulheres querem e esperam coisas bastantes diferentes de uma conversa, com os homens satisfeitos em falar de "coisas" e as mulheres buscando ligação emocional.

Em suma, esses contrastes no aprendizado das emoções promovem aptidões bastante diferentes, com as meninas tornando-se capazes de ler sinais emocionais verbais e não-verbais, de expressar e comunicar sentimentos', e os meninos tornando-se capazes de 'minimizar emoções que tenham a ver com a vulnerabilidade, culpa, medo e dor'. (GOLEMAN, 1996, p.)

Desde a infância a criança aprenderá como avaliar sua maior ou menor necessidade emocional, maior ou menor controle emocional. A sua autoestima, que é a base de estruturação da importantíssima noção de identidade, fica associada às emoções das quais se culpabiliza ou se orgulha de experimentar. Por tanto serão as experiências oportunizadas pelos adultos significativos que fortemente influenciarão a autoestima introjetada pela criança .

(...)O apoio decidido e sistemático dos pais, combinado com o encorajamento e o respeito pela autonomia de uma criança, muito longe de abalar a autoconfiança, fornece pelo contrário, as condições em que ela pode desenvolver-se melhor. Também ajuda a explicar por que, inversamente, uma experiência de separação ou perda, ou ameaças de separação ou perda, especialmente quando usadas pelos pais como sanções para induzir o bom comportamento, podem abalar a confiança de uma criança nos outros e em si mesma, acarretando assim um ou outro desvio do desenvolvimento ótimo - a falta de confiança em si mesma, a ansiedade ou depressão crônica, o não-envolvimento distante ou a independência arrogante que soa falso. Uma autoconfiança bem fundamentada, podemos concluir, é, geralmente, o produto de um crescimento lento e não reprimido, da infância até a maturidade, durante a qual, através da interação com outros, incentivadores e confiáveis, a pessoa aprende a combinar a confiança nos outros com a confiança em si mesma. (BOWLBY, 1982, p.117)

Outro componente psicológico fundamental do ser humano é a capacidade empática, ou seja, nossa capacidade de avaliar o que uma outra pessoa está sentindo ou entendendo. A empatia é uma das habilidades mais importantes para nos relacionarmos bem com as pessoas. Crianças e adultos sentem-se mais seguros se aprenderam a compreender o que as pessoas estão sentindo e como seria oportuno ou não manifestar esse entendimento.Os estudos de neurofisiologia e de psicologia do desenvolvimento mostram que as raízes dessa capacidade, que usaremos ou não durante toda a vida, estão na infância. Nesse momento a criança treina compreender o que seus pais e/ou professores sentem, como reagem e assim vai aprendendo como sentir, como reagir. A sintonização com os outros exige um mínimo de calma interior, de percepção de si mesmo. Se, contudo, os modelos oferecidos à observação da criança não dispõem dessa calma ou da percepção de si na relação com o outro, se reagem chantageando, oprimindo, agredindo... esses modelos serão a matéria prima das noções elementares de que disporão tais crianças sobre seus próprios sentimentos.

Durante tais lições básicas sobre a emocionalidade são violentamente perniciosas as atitudes adultas que minimizam ou banalizam o que a criança sente ("isso não é nada"), exageram determinadas facetas ou nuances emocionais ("coitadinho", "ele é muito bravo"), parecem substituir uma emoção por outra ("você não deve bater no irmãozinho menor, ele é seu neném") ou negam completamente as manifestações ou o significado do que a criança sente ("pare de chorar ou apanha").

Assim o que os adultos devem fazer, sempre que possível, é reconhecer a emoção da criança, permitir sua expressão. Só então pode-se tentar oferecer uma alternativa àqueles sentimentos se são despropositadamente grandes ou angustiantes. Se, por exemplo, uma criança chora quando a mãe sai de casa para o trabalho, ela não está se emocionando despropositadamente. "Percebo que você está chorando porque é mesmo muito ruim se sentir sozinha quando a mamãe sai, como demora mamãe para voltar, é chato ficar sem mamãe que sempre sabe o que você realmente quer... mas parece que mamãe deixou um brinquedo para fazer companhia até que ela volte, porque ela sempre volta e também está com saudades de você...Quando você, daqui a pouquinho sentir vontade poderá brincar até que mamãe volte." Ou. "Acredito que seja muito importante para você demonstrar para seu colega que não gosta de ser xingado por ele, mas se continua batendo dessa forma, ele fica ainda mais raivoso e vai ser difícil se comportar como você desejaria, ou seja sem xingá-lo. Que tal deixá-lo sem sua companhia até que ele sinta sua falta e queira voltar a estar com você e até lá você também já estará com nova vontade de brincar com ele. Experimente. Daqui a pouco será mais fácil desculpá-lo."

Percebemos? A emoção da criança pode ser aceita, reconhecida e também recanalizada para alternativas. Nesses exemplos hipotéticos a emoção é aceita e controlada. A partir desta consciência lições essenciais da primeira infância, como aprender a consolar-se quando perturbado e depois controlar as emoções, podem ser desenvolvidas pela criança. Falando com elas sobre o que sentem administramos um poderoso e simples remédio caseiro que cura e previne.

`Se você pudesse por em palavras o que sentiu, seria seu.'(...) não ter palavras para os sentimentos significa não tornar nossos esses sentimentos.